quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Camisinha não é só para usar no carnaval!!!

Entre serpentinas, fantasias e purpurina, o carnaval segue no imaginário popular como uma época de sexualidade aflorada. Porém, de acordo com uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), o número de casos de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) não aumenta nessa época do ano. Em contrapartida, é nos meses de julho e agosto que se verifica o aumento do número de gravidez indesejada e da ocorrência de gonorréia, sífilis e tricomoníase.
A pesquisa, fruto do mestrado da médica ginecologista e obstetra Wilma Arze, reuniu e avaliou 2646 prontuários de pacientes com diagnóstico dessas três doenças de1993 a 2005, cujo tempo de incubação permite uma análise temporal do período em que a pessoa contraiu a doença. Como possível explicação para o aumento significativo das doenças nos meses de julho e agosto, a pesquisadora acredita que é a época em que as pessoas deixam de usar o preservativo. As campanhas para uso da camisinha só acontecem no carnaval ou no fim de novembro, começo de dezembro dado o dia mundial da AIDS, lembra.
Por isso, Arze reitera a necessidade de campanhas pelo uso do preservativo durante o ano todo e que elas tratem das DSTs como um todo e não se foquem somente no risco do HIV-Aids. Essas outras DSTs são simples de diagnosticar e de tratar, porém ainda observamos grande presença delas na sociedade, diz. Para o coordenador geral da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Veriano Terto, a pesquisa é muito bem vinda, pois vem de acordo com o pensamento das organizações que trabalham com DSTs. Nós sempre levantamos a idéia de que não há relação entre o carnaval e o aumento de casos, explica. Entretanto, ele defende arduamente a campanha de prevenção durante o carnaval. A campanha não é só eficaz do ponto de vista epidemiológico, mas também na perspectiva cultural. Para comunicar algo, é fundamental que haja ligação com a cultura de um povo, explica. Dessa forma, Terto avalia que outras campanhas temáticas e temporais como a do carnaval poderiam acontecer pelo país, seguindo a tradição dos diferentes grupos sociais brasileiros. No Nordeste, por exemplo, deveríamos investir em campanhas durante as festas de São João, diz.
Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), a importância das campanhas durante o carnaval é simbólica, pois a festa está diretamente associada ao sexo e diversão sem preocupações. De acordo com o portal do Ministério da Saúde, as mulheres jovens são o público-alvo a cada ano, pois a AIDS afeta quase duas vezes mais as meninas que têm entre 13 e 19 anos, do que os homens na mesma faixa etária. É fundamental lembrarmos que ainda há sim uma opressão de gênero muito forte na sociedade brasileira, especialmente nas classes mais baixas. Assim, se faz premente o trabalho com esse grupo particular, diz Terto. Como mostra a pesquisa de Arze, a questão das DSTs vai além da Aids e, cada vez mais, programas pelo sexo seguro são fundamentais. No mundo, cerca de 70% da população jovem do sexo feminino têm o papiloma vírus humano (HPV), principal causa do câncer de colo de útero. Como é possível contrair HPV mesmo com a camisinha, é fundamental investirmos na educação sexual, trabalhando questões como a necessidade de parceiros fixos, consultas ginecológicas e auto-exame, conclui a pesquisadora, lembrando que por mais que o sexo seja uma atividade muito gratificante, ela pode ser também perigosa.

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